
O século XXI está a tornar-se cada vez mais o Século do Oceano. Se a história foi muitas vezes escrita através da ascensão e queda de impérios continentais, as grandes questões estratégicas do nosso tempo desenrolam-se agora nos oceanos do mundo. Do comércio global e da segurança energética à conectividade digital, à produção alimentar, à sustentabilidade ambiental e à segurança internacional, o domínio marítimo afirmou-se como o palco central da competição e da cooperação geopolíticas.
Mais de noventa por cento do comércio internacional, em volume, é transportado por via marítima. Milhares de navios mercantes ligam diariamente os continentes, transportando os bens, os recursos e as tecnologias que sustentam a economia global. Sob os oceanos existe uma rede igualmente crítica de cabos submarinos de comunicações, que transporta a esmagadora maioria dos dados digitais do mundo e faz do leito marinho uma das infraestruturas estrategicamente mais relevantes da civilização moderna.
Ao mesmo tempo, os oceanos estão a tornar-se cada vez mais disputados. A competição estratégica entre as grandes potências está a redesenhar regiões marítimas que vão do Atlântico e do Ártico ao Indo-Pacífico e ao Mar do Sul da China. As infraestruturas subaquáticas críticas, os recursos energéticos offshore, as pescas, os minerais marinhos raros e as tecnologias marítimas emergentes transformaram os oceanos num domínio onde convergem interesses económicos, segurança nacional e proteção ambiental.
As alterações climáticas vieram reforçar ainda mais a importância estratégica dos oceanos. A subida do nível do mar, a alteração dos padrões meteorológicos, a acidificação dos oceanos, a perda de biodiversidade e a frequência crescente de fenómenos meteorológicos extremos obrigam governos e organizações internacionais a repensar as abordagens tradicionais à governação marítima. A Economia Azul tornou-se, por isso, mais do que um conceito económico: representa um quadro para alcançar um crescimento sustentável, protegendo os ecossistemas marinhos para as gerações futuras.
Esta evolução exige uma análise informada, assente em investigação rigorosa e no diálogo internacional. A geopolítica dos oceanos já não é um campo especializado reservado a estrategas navais ou a juristas do direito do mar. Tornou-se uma disciplina essencial para compreender as relações internacionais, a resiliência económica, a inovação tecnológica e o desenvolvimento sustentável.
É neste contexto que o Ocean Geopolitics Centre (OGC) foi criado como uma iniciativa da SOAMAR Brasil em Portugal – Europa e Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP). O Centro pretende ser uma plataforma independente de investigação, análise estratégica e diálogo sobre políticas públicas nas questões que moldam o domínio marítimo global. Ao reunir académicos, decisores políticos, profissionais do mar, líderes da indústria e sociedade civil, o Centro procura promover soluções multidisciplinares para os complexos desafios que os oceanos enfrentam.
O Ocean Geopolitics Centre publicará artigos de investigação, policy briefs, avaliações estratégicas, ensaios de opinião e relatórios especiais sobre segurança marítima, estratégia naval, governação dos oceanos, direito internacional do mar, Economia Azul, infraestruturas críticas, tecnologias emergentes, resiliência climática e evolução geopolítica global. Mantendo uma visão global, o Centro está particularmente empenhado em reforçar a cooperação entre os países da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) e em promover o diálogo em toda a comunidade atlântica.
Os nossos oceanos sempre ligaram civilizações. Hoje, ligam também as maiores oportunidades do mundo e os seus desafios mais prementes. Compreender esta realidade é essencial para construir economias resilientes, salvaguardar a paz internacional, proteger os ecossistemas marinhos e garantir que as gerações futuras herdam oceanos que continuem abertos, seguros e sustentáveis.
No momento em que o Ocean Geopolitics Centre inicia o seu percurso, convidamos investigadores, profissionais, instituições e leitores de todo o mundo a juntarem-se a esta conversa. Juntos, podemos fazer avançar o conhecimento, incentivar a cooperação e contribuir para um futuro em que os oceanos continuem a ser uma fonte de prosperidade, segurança e responsabilidade partilhada.
O futuro não será moldado apenas em terra. Será moldado no mar.
Publicado originalmente em oceangeopoliticscentre.blogspot.com