Clima, Ambiente e Segurança Humana - Ocean Geopolitics Centre https://www.oceangeopoliticscentre.org/area-de-accao/clima-ambiente-seguranca-humana/ Connect · Analyse · Cooperate · Shape the Ocean Thu, 01 Oct 2026 00:10:39 +0000 pt-PT hourly 1 https://wordpress.org/?v=7.1.2 A evaporação da água do mar como mecanismo de amplificação climática: transferência de calor oceânico, carga de humidade atmosférica e intensificação da instabilidade climática global https://www.oceangeopoliticscentre.org/publicacoes/evaporacao-agua-do-mar/ Wed, 30 Sep 2026 08:00:00 +0000 https://www.oceangeopoliticscentre.org/publicacoes/evaporacao-agua-do-mar/ A discussão científica contemporânea sobre as alterações climáticas tem-se centrado predominantemente na acumulação de gases com efeito de estufa, no forçamento radiativo atmosférico e nas emissões antropogénicas de carbono. Embora estes fatores continuem a ser fundamentais para a compreensão atual do aquecimento global, a dimensão…

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A discussão científica contemporânea sobre as alterações climáticas tem-se centrado predominantemente na acumulação de gases com efeito de estufa, no forçamento radiativo atmosférico e nas emissões antropogénicas de carbono. Embora estes fatores continuem a ser fundamentais para a compreensão atual do aquecimento global, a dimensão oceânica da dinâmica climática tem sido muitas vezes subestimada no discurso público e até académico. Na perspetiva da oceanografia física, a evaporação da água do mar constitui um dos mecanismos termodinâmicos mais poderosos que regem o sistema climático da Terra. Os oceanos não são meros reservatórios passivos que absorvem calor atmosférico; funcionam, pelo contrário, como reguladores e amplificadores ativos das trocas de energia do planeta.

Cerca de 71% da superfície da Terra está coberta por oceanos, e estes sistemas marinhos absorvem mais de 90% do excesso de calor gerado pelo forçamento antropogénico de efeito de estufa. O consequente aumento da temperatura da superfície do mar intensifica as taxas de evaporação, altera o transporte de humidade atmosférica e amplifica a instabilidade hidrológica à escala planetária.

Do ponto de vista oceanográfico, a evaporação é fundamentalmente um processo de transferência de calor. A passagem da água do mar do estado líquido ao estado de vapor exige energia sob a forma de calor latente, que é transferida da superfície do oceano para a atmosfera. Este processo cria um acoplamento energético entre as anomalias térmicas oceânicas e os sistemas de circulação atmosférica. À medida que a temperatura da superfície do mar sobe, a evaporação acelera de forma não linear, aumentando as concentrações de vapor de água na atmosfera. Como o próprio vapor de água é um potente gás com efeito de estufa, surge no sistema climático um importante mecanismo de retroação positiva.

O ciclo hidrológico não pode, por isso, ser tratado apenas como uma resposta secundária às alterações climáticas; está a tornar-se, cada vez mais, um dos seus principais mecanismos de amplificação. Observações recentes dos sistemas de boias Argo e medições da salinidade oceânica indicam uma intensificação marcada dos contrastes globais entre evaporação e precipitação, sobretudo nos giros subtropicais e nas bacias oceânicas tropicais. Durack e Wijffels (2010) demonstraram que as regiões de elevada salinidade estão a tornar-se progressivamente mais salgadas, enquanto as regiões de baixa salinidade estão a tornar-se mais doces — um fenómeno frequentemente resumido na literatura científica como «os ricos ficam mais ricos». Esta amplificação da salinidade é uma prova direta de um ciclo hidrológico em aceleração, impulsionado pela intensificação da evaporação sobre oceanos em aquecimento. As implicações são profundas, porque os gradientes de salinidade influenciam a circulação termohalina, a estratificação da camada superior do oceano e, em última instância, a redistribuição global do calor.

O sistema oceano-atmosfera funciona através de um equilíbrio delicado entre fluxos radiativos, transferência de calor latente, trocas de calor sensível e fluxos de água doce. O aumento da evaporação da água do mar altera todos estes parâmetros em simultâneo. Uma evaporação mais intensa injeta maiores quantidades de calor latente na troposfera, aumentando a instabilidade atmosférica e o potencial convectivo. Nas regiões tropicais, isto contribui para o reforço dos sistemas ciclónicos e dos rios atmosféricos. Nas regiões subtropicais, a intensificação da evaporação coincide frequentemente com a formação de secas persistentes, devido à alteração das trajetórias de transporte da precipitação.

O Painel Intergovernamental sobre as Alterações Climáticas (IPCC) tem sublinhado repetidamente que o aquecimento dos oceanos está a intensificar o ciclo global da água. No entanto, numa perspetiva estritamente oceanográfica, é crucial reconhecer que a evaporação não é simplesmente uma consequência atmosférica do aquecimento; é, ela própria, um motor termodinâmico ativo da desestabilização climática.

A evaporação oceânica desempenha também um papel central na regulação da produção de entropia do planeta. O sistema climático redistribui continuamente energia térmica das regiões equatoriais para as polares, através da circulação atmosférica e das correntes oceânicas. O transporte de calor latente pela água do mar evaporada representa uma das componentes dominantes deste processo de redistribuição. À medida que a evaporação se intensifica, aumenta o transporte de energia na atmosfera, produzindo extremos de precipitação mais fortes, sistemas tempestuosos maiores e maior variabilidade climática.

Uma das consequências mais significativas da intensificação da evaporação é a alteração dos padrões de salinidade da superfície do mar. A salinidade afeta a densidade da água do mar, que por sua vez regula a formação de águas profundas e a circulação termohalina. No Atlântico Norte, por exemplo, os aumentos de salinidade provocados pela evaporação contribuem para alterações de densidade que influenciam a Circulação Meridional de Revolvimento do Atlântico (AMOC). Em simultâneo, a maior entrada de água doce proveniente do degelo polar reduz a salinidade nas latitudes elevadas, podendo enfraquecer os processos de convecção profunda essenciais para a circulação oceânica global. Este duplo processo introduz uma instabilidade crescente no sistema climático. A intensificação da evaporação tropical reforça a carga de humidade atmosférica, enquanto a diluição polar por água doce ameaça a estabilidade dos padrões de circulação oceânica de grande escala. Estas interações demonstram que a evaporação tem de ser compreendida num quadro oceanográfico integrado, e não como um fenómeno atmosférico isolado.

A importância energética da evaporação é particularmente evidente nos oceanos tropicais. A radiação solar absorvida à superfície do oceano é parcialmente convertida em calor latente através da evaporação, armazenando efetivamente energia no vapor de água atmosférico. Quando mais tarde ocorre condensação em sistemas tempestuosos, furacões ou nuvens convectivas, esse calor latente é libertado de novo na atmosfera, intensificando a dinâmica atmosférica. Este mecanismo explica porque é que os ciclones tropicais retiram grande parte da sua energia de superfícies oceânicas quentes. Temperaturas elevadas da superfície do mar aumentam as taxas de evaporação e a disponibilidade de humidade atmosférica, aumentando assim o potencial de intensidade dos ciclones. Os conjuntos de dados observacionais contemporâneos mostram fortes correlações entre temperaturas anormalmente elevadas da superfície do mar e episódios de intensificação rápida de ciclones nas bacias do Atlântico e do Indo-Pacífico.

A relação de Clausius–Clapeyron fornece um quadro termodinâmico importante para compreender este processo. Segundo este princípio, a capacidade da atmosfera para reter vapor de água aumenta cerca de 7% por cada grau Celsius de aquecimento. Consequentemente, mesmo aumentos relativamente pequenos da temperatura do oceano podem gerar aumentos desproporcionadamente grandes do conteúdo de humidade atmosférica. Este mecanismo de amplificação termodinâmica é central para a instabilidade climática contemporânea.

Além disso, o ciclo hidrológico oceânico exerce uma influência substancial na formação de nuvens e no albedo planetário. O aumento da evaporação altera a microfísica e a distribuição das nuvens e a dinâmica do forçamento radiativo. Consoante a altitude, a composição e a localização geográfica, as nuvens podem arrefecer a Terra, refletindo a radiação solar, ou aquecê-la, retendo a radiação de onda longa emitida. A interação entre a formação de nuvens induzida pela evaporação e o balanço radiativo continua a ser uma das incertezas mais complexas da ciência do clima.

Do ponto de vista da física marinha, é por isso inexato conceber as alterações climáticas apenas como aquecimento atmosférico. O fenómeno é compreendido com mais rigor como um desequilíbrio energético acoplado oceano-atmosfera, em que a evaporação da água do mar funciona como mediador principal da redistribuição de calor e da amplificação hidrológica.

A evaporação oceânica afeta ainda os sistemas biogeoquímicos. O aumento da estratificação da camada superior do oceano, resultante das alterações de salinidade e temperatura, pode reduzir a mistura vertical de nutrientes, afetando a produtividade do fitoplâncton e os processos de sequestro de carbono marinho. A redução da produtividade biológica pode enfraquecer o sumidouro oceânico de carbono, reforçando potencialmente a acumulação de carbono na atmosfera através de mecanismos de retroação positiva.

A intensificação da evaporação tem também grandes implicações geopolíticas. As regiões que dependem de regimes de precipitação estáveis enfrentam cada vez mais perturbações hidrológicas, devido à alteração dos padrões de transporte de humidade. Prevê-se que as zonas secas subtropicais se expandam em condições de evaporação mais intensa, ameaçando a disponibilidade de água doce, a estabilidade agrícola e a segurança humana. Em simultâneo, espera-se que os episódios de precipitação extrema aumentem em frequência e intensidade nas regiões de convergência de humidade. O oceano surge, assim, não só como regulador do clima, mas também como um domínio geopolítico estratégico que molda os padrões futuros de segurança dos recursos, migração e estabilidade internacional. O estudo da evaporação oceânica tem, por conseguinte, de ir além de uma análise meteorológica estreita, rumo a um quadro mais amplo que integre a oceanografia física, a dinâmica climática e a avaliação de riscos geopolíticos.

Como observaram Fox-Kemper et al. no quadro do Sexto Relatório de Avaliação do IPCC, a «absorção de calor pelo oceano» continua a ser central para compreender as trajetórias climáticas futuras. Contudo, os mecanismos através dos quais este calor absorvido regressa à circulação atmosférica — em particular através da evaporação e da transferência de calor latente — merecem uma ênfase analítica substancialmente maior nas discussões sobre política climática. A evidência científica indica cada vez mais que a intensificação da evaporação da água do mar não é apenas um sintoma das alterações climáticas, mas uma das suas principais vias de amplificação. Compreender este processo é essencial para modelar com rigor os futuros extremos hidrológicos, as alterações na circulação atmosférica e a instabilidade oceânica.

A intensificação acelerada da evaporação da água do mar introduz não só consequências termodinâmicas para o sistema climático, mas também transformações estruturais na circulação atmosférica, na estabilidade da criosfera e na distribuição da energia oceânica. Na perspetiva da oceanografia física, a evaporação tem de ser interpretada como um mecanismo dinâmico de troca que liga o conteúdo de calor do oceano à instabilidade atmosférica. Os oceanos não se limitam a armazenar anomalias térmicas; redistribuem ativamente a energia pelo sistema Terra através da transferência de calor latente associada à evaporação.

As observações oceanográficas contemporâneas revelam que o conteúdo de calor do oceano global aumentou a ritmos sem precedentes desde meados do século XX. Cheng et al. (2023) estimam que os 2000 metros superiores do oceano mundial continuam a acumular energia térmica, apesar da variabilidade climática interanual. Este calor acumulado aumenta diretamente o potencial de evaporação à superfície do mar, sobretudo nas bacias tropicais e subtropicais, onde a radiação solar e a estratificação térmica são mais fortes. A relação termodinâmica entre a evaporação e a carga de humidade atmosférica é uma das características marcantes da desestabilização climática moderna. O aumento das concentrações de vapor de água na atmosfera intensifica o forçamento radiativo, porque o vapor de água absorve eficazmente a radiação infravermelha de onda longa. Cria-se assim um ciclo de retroação que se autorreforça: o aquecimento dos oceanos aumenta a evaporação, a maior evaporação eleva as concentrações de humidade atmosférica e essas concentrações elevadas intensificam ainda mais o aquecimento.

Held e Soden (2006) defenderam que a «retroação do vapor de água» constitui uma das retroações positivas mais fortes do sistema climático. Do ponto de vista oceanográfico, porém, é essencial reconhecer que a própria superfície do oceano é o principal gerador deste mecanismo de retroação. A atmosfera não consegue sustentar por si só concentrações elevadas de humidade; depende fundamentalmente da evaporação dos oceanos. As consequências para os sistemas de precipitação globais são cada vez mais evidentes. A intensificação da evaporação amplifica o transporte de humidade atmosférica através das células de circulação planetária, dos rios atmosféricos e dos sistemas de monção. Contudo, a precipitação não aumenta de forma uniforme. Pelo contrário, o aquecimento intensifica as assimetrias hidrológicas existentes. As regiões húmidas tornam-se geralmente mais húmidas, devido a uma maior convergência de humidade atmosférica, enquanto as regiões áridas sofrem frequentemente perdas por evaporação mais intensas e uma diminuição da humidade do solo.

Este fenómeno é particularmente visível nas regiões subtropicais influenciadas pelos ramos descendentes da circulação de Hadley. A expansão destas cinturas subtropicais secas tem sido associada ao aumento das taxas de evaporação e à migração das células de circulação atmosférica em direção aos polos. Estes processos ameaçam a estabilidade a longo prazo da água doce em regiões como a bacia do Mediterrâneo, a África Austral, o oeste da América do Norte e partes da Austrália.

A evaporação oceânica exerce também uma influência substancial sobre os sistemas criosféricos. O aumento da humidade atmosférica proveniente de oceanos mais quentes contribui para alterar a dinâmica da queda de neve e da precipitação nas regiões polares. Em simultâneo, o reforço do transporte de calor em direção aos polos acelera a desestabilização das calotes de gelo através de mecanismos de aquecimento atmosférico e oceânico.

O Oceano Ártico é um exemplo particularmente importante das interações acopladas entre evaporação e clima. A diminuição do gelo marinho expõe superfícies oceânicas mais escuras, com menor albedo, aumentando a absorção solar e o aquecimento da camada superior do oceano. Este calor adicional aumenta as taxas de evaporação locais, elevando as concentrações de humidade atmosférica sobre as regiões polares. O resultado é um circuito de retroação complexo, que envolve o declínio do gelo marinho, a intensificação da evaporação, alterações na formação de nuvens e um aquecimento adicional. Serreze e Barry (2011) descrevem este processo como amplificação ártica, em que o aquecimento polar ocorre a ritmos significativamente superiores à média global. A evaporação oceânica constitui uma componente central, embora por vezes subvalorizada, deste mecanismo de amplificação, porque a transferência de calor latente liga diretamente o aquecimento oceânico à redistribuição da energia atmosférica.

A influência da evaporação sobre a circulação atmosférica vai além dos impactos climáticos regionais. A intensificação da libertação de calor latente nas zonas de convecção tropical pode modificar o comportamento dos sistemas de ondas planetárias, das correntes de jato e das oscilações atmosféricas de grande escala. Há evidência crescente de que o aquecimento ártico amplificado e a alteração das trocas de calor oceano-atmosfera podem contribuir para uma maior ondulação das correntes de jato do Hemisfério Norte, aumentando a persistência de padrões de bloqueio associados a ondas de calor, cheias e irrupções de ar frio.

Do ponto de vista da climatologia marinha, estas evoluções indicam que a evaporação não deve ser interpretada apenas à luz do ciclo hidrológico. Representa antes um mecanismo central da energética atmosférica, capaz de reestruturar a dinâmica da circulação à escala hemisférica. O ciclo do carbono oceânico é igualmente afetado pela intensificação da evaporação e pelo aquecimento. A subida da temperatura da superfície do mar reduz a solubilidade do dióxido de carbono na água do mar, enfraquecendo a capacidade do oceano para absorver CO₂ atmosférico. Em simultâneo, uma estratificação mais forte reduz a mistura vertical entre as águas superficiais e as camadas mais profundas, ricas em carbono. Estes processos podem diminuir, a longo prazo, a eficiência do sequestro oceânico de carbono.

Feely et al. (2004) demonstraram que a absorção oceânica de carbono antropogénico já alterou substancialmente a química dos carbonatos marinhos, contribuindo para a acidificação dos oceanos. Contudo, a interação entre o aquecimento induzido pela evaporação, a estratificação e a eficiência de absorção de carbono continua a ser uma área que exige investigação integrada adicional.

Além das transformações físicas e químicas, as alterações climáticas induzidas pela evaporação afetam os sistemas biológicos marinhos. O aumento da estratificação da camada superior do oceano limita o afloramento de nutrientes em muitas regiões oceânicas, reduzindo a produtividade do fitoplâncton. Como o fitoplâncton constitui a base das cadeias alimentares marinhas e contribui significativamente para a produção global de oxigénio e para a fixação de carbono, as perturbações da produtividade primária marinha podem ter consequências ecológicas em cascata. Além disso, as ondas de calor marinhas — cada vez mais associadas a anomalias persistentes da temperatura da superfície do mar — são intensificadas pela redução da mistura vertical e pela maior retenção de calor, induzida pela evaporação, nas camadas superiores do oceano. Estes episódios já provocaram extensos branqueamentos de corais, perturbações nas pescas e desestabilização de ecossistemas em várias bacias oceânicas.

Numa perspetiva geopolítica, a intensificação da evaporação oceânica introduz riscos estratégicos que vão muito além da degradação ambiental. A segurança hídrica, a produtividade agrícola, a estabilidade energética e a resiliência costeira são cada vez mais moldadas pela variabilidade climática de origem oceânica. Os países que dependem de sistemas de monção previsíveis ou de bacias hidrográficas alimentadas por glaciares enfrentam uma vulnerabilidade crescente, à medida que a evaporação altera o calendário e a intensidade da precipitação.

As implicações para a estratégia marítima são igualmente significativas. As alterações da salinidade oceânica, dos gradientes de temperatura e da dinâmica da circulação podem afetar as operações navais, as rotas marítimas, a acústica submarina e a competição por recursos nos corredores marítimos estratégicos. À medida que o gelo marinho do Ártico recua e as condições oceânicas evoluem, poderão surgir novas tensões geopolíticas em torno do acesso à navegação, das pescas e dos recursos do leito marinho.

A instabilidade climática provocada pelas retroações oceano-atmosfera não pode, portanto, ser separada das questões mais amplas da segurança internacional e da governação estratégica. A oceanografia ocupa uma posição cada vez mais central na análise geopolítica, porque a estabilidade da civilização global continua fundamentalmente dependente da estabilidade dos sistemas oceânicos. A compreensão científica das alterações climáticas tem, por conseguinte, de evoluir para além de quadros atmosféricos simplificados. O sistema Terra é, na sua essência, oceânico. A atmosfera contém apenas uma pequena fração da energia térmica armazenada nos oceanos, mas os processos atmosféricos respondem rapidamente às alterações na distribuição do calor oceânico e na dinâmica da evaporação. Como observou Rahmstorf (2002) a propósito da circulação termohalina, um forçamento relativamente gradual pode produzir transições sistémicas abruptas quando são ultrapassados limiares críticos. A intensificação da evaporação pode contribuir para esse comportamento não linear, alterando em simultâneo a distribuição da salinidade, os padrões de circulação atmosférica e os mecanismos de retroação da criosfera.

A frequência crescente de extremos climáticos compostos — incluindo secas, cheias, ondas de calor marinhas e ciclones tropicais intensificados em simultâneo — reflete a crescente instabilidade do sistema acoplado oceano-atmosfera. Esta evolução sublinha a necessidade de integrar a oceanografia física de forma mais central na ciência do clima, nas políticas públicas e nos quadros de planeamento estratégico.

Os modelos climáticos futuros têm, por isso, de melhorar a representação da transferência de calor latente induzida pela evaporação, da dinâmica da salinidade na camada superior do oceano e dos processos de retroação acoplados oceano-atmosfera. Sem uma integração mais sofisticada dos mecanismos oceanográficos, as projeções do comportamento climático futuro poderão subestimar tanto o ritmo como a complexidade da mudança sistémica.

Em conclusão, a evaporação da água do mar deve ser reconhecida não apenas como uma resposta passiva à subida das temperaturas, mas como um mecanismo de amplificação primário do sistema climático global. Através da transferência de calor latente, da carga de humidade atmosférica, da alteração da salinidade e da intensificação hidrológica, a evaporação liga diretamente o aquecimento oceânico à instabilidade atmosférica e à disrupção climática.

Os oceanos continuam a ser o motor termodinâmico central do sistema Terra. Compreender os seus processos de evaporação é, por isso, indispensável para compreender a trajetória das alterações climáticas do século XXI e as transformações geopolíticas que delas poderão resultar.

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O Século do Oceano: porque é que o futuro do poder global se decidirá no mar https://www.oceangeopoliticscentre.org/publicacoes/seculo-do-oceano/ Thu, 18 Jun 2026 02:49:41 +0000 https://www.oceangeopoliticscentre.org/publicacoes/seculo-do-oceano/ O século XXI está a tornar-se cada vez mais o Século do Oceano. Se a história foi muitas vezes escrita através da ascensão e queda de impérios continentais, as grandes questões estratégicas do nosso tempo desenrolam-se agora nos oceanos do mundo. Do comércio global e…

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O Século do Oceano: mapa-mundo das principais rotas marítimas, pontos de estrangulamento estratégicos e cabos submarinos

O século XXI está a tornar-se cada vez mais o Século do Oceano. Se a história foi muitas vezes escrita através da ascensão e queda de impérios continentais, as grandes questões estratégicas do nosso tempo desenrolam-se agora nos oceanos do mundo. Do comércio global e da segurança energética à conectividade digital, à produção alimentar, à sustentabilidade ambiental e à segurança internacional, o domínio marítimo afirmou-se como o palco central da competição e da cooperação geopolíticas.

Mais de noventa por cento do comércio internacional, em volume, é transportado por via marítima. Milhares de navios mercantes ligam diariamente os continentes, transportando os bens, os recursos e as tecnologias que sustentam a economia global. Sob os oceanos existe uma rede igualmente crítica de cabos submarinos de comunicações, que transporta a esmagadora maioria dos dados digitais do mundo e faz do leito marinho uma das infraestruturas estrategicamente mais relevantes da civilização moderna.

Ao mesmo tempo, os oceanos estão a tornar-se cada vez mais disputados. A competição estratégica entre as grandes potências está a redesenhar regiões marítimas que vão do Atlântico e do Ártico ao Indo-Pacífico e ao Mar do Sul da China. As infraestruturas subaquáticas críticas, os recursos energéticos offshore, as pescas, os minerais marinhos raros e as tecnologias marítimas emergentes transformaram os oceanos num domínio onde convergem interesses económicos, segurança nacional e proteção ambiental.

As alterações climáticas vieram reforçar ainda mais a importância estratégica dos oceanos. A subida do nível do mar, a alteração dos padrões meteorológicos, a acidificação dos oceanos, a perda de biodiversidade e a frequência crescente de fenómenos meteorológicos extremos obrigam governos e organizações internacionais a repensar as abordagens tradicionais à governação marítima. A Economia Azul tornou-se, por isso, mais do que um conceito económico: representa um quadro para alcançar um crescimento sustentável, protegendo os ecossistemas marinhos para as gerações futuras.

Esta evolução exige uma análise informada, assente em investigação rigorosa e no diálogo internacional. A geopolítica dos oceanos já não é um campo especializado reservado a estrategas navais ou a juristas do direito do mar. Tornou-se uma disciplina essencial para compreender as relações internacionais, a resiliência económica, a inovação tecnológica e o desenvolvimento sustentável.

É neste contexto que o Ocean Geopolitics Centre (OGC) foi criado como uma iniciativa da SOAMAR Brasil em Portugal – Europa e Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP). O Centro pretende ser uma plataforma independente de investigação, análise estratégica e diálogo sobre políticas públicas nas questões que moldam o domínio marítimo global. Ao reunir académicos, decisores políticos, profissionais do mar, líderes da indústria e sociedade civil, o Centro procura promover soluções multidisciplinares para os complexos desafios que os oceanos enfrentam.

O Ocean Geopolitics Centre publicará artigos de investigação, policy briefs, avaliações estratégicas, ensaios de opinião e relatórios especiais sobre segurança marítima, estratégia naval, governação dos oceanos, direito internacional do mar, Economia Azul, infraestruturas críticas, tecnologias emergentes, resiliência climática e evolução geopolítica global. Mantendo uma visão global, o Centro está particularmente empenhado em reforçar a cooperação entre os países da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) e em promover o diálogo em toda a comunidade atlântica.

Os nossos oceanos sempre ligaram civilizações. Hoje, ligam também as maiores oportunidades do mundo e os seus desafios mais prementes. Compreender esta realidade é essencial para construir economias resilientes, salvaguardar a paz internacional, proteger os ecossistemas marinhos e garantir que as gerações futuras herdam oceanos que continuem abertos, seguros e sustentáveis.

No momento em que o Ocean Geopolitics Centre inicia o seu percurso, convidamos investigadores, profissionais, instituições e leitores de todo o mundo a juntarem-se a esta conversa. Juntos, podemos fazer avançar o conhecimento, incentivar a cooperação e contribuir para um futuro em que os oceanos continuem a ser uma fonte de prosperidade, segurança e responsabilidade partilhada.

O futuro não será moldado apenas em terra. Será moldado no mar.

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